Sobre Mim Entrevistas Artigos Produções Lifestyle

12 de julho de 2018

Dra Filipa Osório | Na Primeira Pessoa


A Dra. Filipa Osório é Ginecologista-Obstetra e uma das grandes especialistas em Endometriose no nosso País, tendo sido responsável pela recente cirurgia que realizei, da qual que vos falei no meu Testemunho. A sua área de diferenciação é a cirurgia minimamente invasiva ginecológica (laparoscopia e histeroscopia) mas o que a distingue verdadeiramente, na minha opinião, é a forma humana e carinhosa como trata cada paciente e lhes dá alento para enfrentar as adversidades associadas a esta doença, a qual afecta 1 em cada 10 mulheres.


Dra. Filipa Osório em que consiste a endometriose e como se manifesta? Qual é a diferença entre endometriose e adenomiose?

Nós mulheres temos dentro do útero umas glândulas a que chamamos endométrio, que crescem ciclicamente todos os meses, e que descamam ao fim do mês – ocorrendo a menstruação. Na endometriose o que acontece é que estas glândulas crescem fora da cavidade uterina, o que faz com que estas menstruem nos locais onde se implantam, originando lesões de endometriose. Estas podem-se localizar em qualquer parte do corpo, sendo mais frequentes na cavidade pélvica, junto aos órgãos reprodutores (útero e ovários). Adenomiose é uma forma de endometriose, em que as glândulas endometriais se localizam dentro do próprio músculo uterino. 

Dependendo do local, podem-se manifestar de diferentes formas, podendo ser identificadas sobre a forma de quistos, aderências ou nódulos, ou em alguns casos, infertilidade. 

Clinicamente manifesta-se maioritariamente por dor intensa (dor associada à menstruação, dor ao evacuar, dor ao urinar ou dor nas relações e por vezes dor na ovulação), e nalguns casos por infertilidade ou achados em exames de rotina. 


Muitas vezes é confundida com as dores inerentes ao ciclo menstrual, como distinguir? 

Pelo grau de dor­ – uma dor que é incapacitante, que interfere com o dia a dia da mulher e que não é facilmente controlável com analgésicos, é para ser investigada.


A doença actua da mesma forma em cada mulher? Pode afectar diferentes órgãos? Qual a percentagem de mulheres portadoras da doença?

A doença manifesta-se de forma diferente em cada mulher, ou seja, além de poder ter localizações diferentes, um nódulo no mesmo local pode ser indolor numa mulher e incapacitante noutra, tal como, numa mulher pode permanecer estável ao longo do tempo, como noutra pode ter um crescimento progressivo. E atualmente não conseguimos perceber ou prever o comportamento de cada uma. 

Como já tinha referido, podemos identificar lesões de endometriose em qualquer órgão do nosso corpo, sendo mais frequente na cavidade pélvica.

Esta é uma doença que afecta cerca de 10-15% das mulheres em idade reprodutiva. Ou seja, cerca de 1 em cada 10 mulheres terá endometriose.


Existe alguma dieta alimentar que ajuda a prevenir e/ou controlar a doença? E no que se refere a hábitos de vida?

Aquilo que verifico é que determinados hábitos alimentares podem diminuir os sintomas da doença, nomeadamente a restrição de lactose e a redução do glúten bem como das carnes vermelhas diminuem os sintomas de inchaço e dor pélvica numa grande parte das mulheres com endometriose. Também o exercício físico regular ajuda na melhoria do bem estar com redução da dor. 

Quanto à medicação, existe algo que possa atenuar o aparecimento de novos focos? 

O uso de terapêuticas hormonais como a pílula, leva à atrofia do endométrio com redução da probabilidade de progressão ou recidiva da doença. 


A gravidez pode ajudar a superar a endometriose? 

A gravidez não trata a endometriose e existem mesmo alguns casos (raros) de complicações da doença durante a gravidez, mas o mais frequente é haver uma redução dos sintomas pelo ambiente rico em progesterona e pobre em estrogénios, que ocorre durante a gravidez. Ou seja, podemos dizer, que na maioria dos casos, a gravidez “adormece” a endometriose. 


Há uma maior incidência de infertilidade em mulheres com endometriose? Qual a percentagem? 

Em números gerais, cerca de 2/3 das mulheres com endometriose não terão qualquer problema em engravidar. Apenas 1/3 vai precisar de ajuda neste caminho, que habitualmente está relacionado com os casos mais graves de endometriose. 


Existe alguma relação entre a doença e a idade da mulher? 

Não exatamente. É uma doença que pode aparecer durante os anos reprodutivos da mulher, ou seja, desde que inicia a menstruação até que entra na menopausa, mas a intensidade ou a gravidade não se relaciona diretamente com a idade. No entanto, como é uma doença que responde aos estrogénios que são produzidos pelos ovários, quanto mais precocemente ela aparece, maior é o risco de progressão e recidiva, pelo tempo de exposição hormonal até à menopausa. 


A partir de que altura é importante fazer um despiste e que exames devem ser efectuados? Há laboratórios e/ou instalações médicas que recomende? 

Todas as mulheres devem fazer uma vigilância ginecológica regular (pelo menos 1x por ano). Havendo sintomas associados à menstruação, nomeadamente dor intensa, devem procurar avaliação ginecológica. Aqui costumo dizer que fazer as perguntas certas, saber ouvir e observar a mulher que nos procura, permite chegar ao diagnóstico na maioria dos casos. Depois da suspeita clínica, a confirmação deve ser feita por uma boa ecografia (e aqui digo boa referindo-me a ser realizada por alguém que saiba identificar e mapear a doença, o que infelizmente nem sempre acontece) 

Se houver uma suspeita, deve ser procurado um centro/ hospital/ médico que se dedique ao tratamento especifico da endometriose, para que seja estudada e orientada correctamente. 

A associação de mulheres com endometriose – mulherendo – também tem um papel bastante activo no apoio e orientação destas mulheres, estando sempre disponíveis para o esclarecimento de quaisquer dúvidas. 


Uma mulher com endometriose fica curada após a menopausa? 

As queixas diminuem progressivamente com a entrada na menopausa porque deixa de haver crescimento das glândulas endometriais, pelo que as lesões existentes tendem a atrofiar e a deixar de ser sintomáticas. 


É uma doença hereditária? 

Sim, parece existir uma predisposição familiar, no entanto, é uma doença multifactorial, ou seja, ainda desconhecida, mas com vários factores envolventes. 


O que a levou a especializar-se nesta área? 

Uma sucessão de acasos que fizeram todo o sentido. Eu escolhi ginecologia porque desde a faculdade que comecei a ajudar cirurgia, nomeadamente laparoscopia ligada a infertilidade, com o Prof Pereira Coelho. Foi ele que me cativou e fez com que me apaixonasse pela cirurgia ginecológica com todas as suas facetas. Depois do bichinho instalado, entrei na especialidade, e comecei a trabalhar também com o Dr António Setúbal, estive a fazer um fellowship de cirurgia endoscópica avançada com o Prof Arnaud Wattiez em Estrasbourgo e quando foi altura de tomar opções a endometriose já fazia parte do meu dia a dia. 


A Dra. Filipa tem uma sensibilidade que senti em cada momento que estivemos juntas e que me deu confiança para enfrentar todo este processo. Considera que pelo facto de ser mulher é mais fácil identificar-se com a paciente? 

Não só, mas também. Acho que o ser mulher e o ser mãe me ajuda a compreender alguns dos medos e angustias de quem tem endometriose e isso ajuda-me a tratar melhor as minhas doentes porque ao compreender os seus receios e os seus desejos, consigo adaptar o melhor tratamento possível a cada uma de acordo com as respectivas expectativas. 


No meio de algo tão sério como a intervenção cirúrgica a que fui submetida (bem como noutros procedimentos), lembro-me que achei divertido vê-la com uma touca florida a fazer lembrar as dos personagens da Anatomia de Grey. É uma espécie de tendência entre os médicos? É fã da série? 

Dentro do bloco operatório temos que obrigatoriamente ter um fato próprio e calçado próprio, bem como touca e máscara; digamos que estamos todos vestidos de pijama horas a fio e todos de igual. A toca florida ou com outros motivos é apenas um toque pessoal de cada um, que permite dar cor e vida ao dia a dia :). Quanto à série acho piada, mas não tenho muito tempo para ver... 


Como se define como mulher? 

Esta é uma pergunta difícil de responder, mas acho que sou uma pessoa calma e tranquila e que me esforço por fazer bem o meu trabalho, não esquecendo a parte humana que é cada vez mais importante para estabelecer uma boa relação de confiança.


Jardins Fundação Calouste Gulbenkian


Mais uma vez obrigada por todo o carinho e dedicação ao longo de todo este processo!


Créditos Fotográficos Rute Obadia Fotografia 




Look

Kimono e calças Zara | Botins Aerosoles | Argolas Sofia Tregeira Joalharia de Autor

5 comentários:

  1. Uma excelente entrevista, uma grande chamada de alerta e uma profissional de excelência. A não perder!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada meu amor, espero mesmo que seja uma chamada de atenção!

      Eliminar
  2. Tive que partilhar. Excelente entrevista. Excelente ser humano... Muito Obrigada.
    Ass. Sónia Morais

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fico muito feliz que tenha gostado e agradeço a partilha. A Dra. Filipa Osório é de facto um ser humano excepcional!

      Eliminar
    2. Gostei muito do do comentário uma grande explicação

      MN MN

      Eliminar