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17 de abril de 2012

Maria Inês de Almeida | Na primeira pessoa


(Foto de perfil Bruno Peres)

Encontrei-me com a Maria Inês de Almeida numa manhã meio chuvosa no Orpheu Cafée no Principe Real. Além do espaço acolhedor são inúmeras as referências ao escritor Fernando Pessoa, pelo que não poderia fazer mais sentido entrevistar aqui esta jovem escritora.


Maria Inês chegou com o seu sorriso cativante, que considero ser um dos atributos que a torna numa mulher tão especial e com tanta sensibilidade para escrever livros para crianças e jovens. Apesar de já ter estado com a Inês em alguns eventos e termos tido alguma conversa de circunstância saí dali com a certeza que tinha ganho uma amiga!


Inês, como surgiu a tua paixão pela escrita?

Tudo começou pelo jornalismo, depois de eu ter tirado a minha licenciatura em Comunicação Social. O jornalismo ensina-nos a conhecer e lidar com o poder da palavra, a plasticidade da língua, a expressividade da escrita. Acho que a partir daí as coisas aconteceram naturalmente.


O teu filho é a tua principal fonte de inspiração. Se não fosses mãe, a tua carreira poderia ter levado um rumo diferente?

Não consigo fazer esse exercício de história alternativa. Talvez sim, talvez não. E ninguém pode dizer que, se uma coisa tivesse sido outra, as consequências seriam estas e não aquelas. Mas, sim, é verdade que encontro no meu filho uma grande fonte de inspiração.

O livro “Quando eu for… Grande” foi nomeado como um dos três melhores livros de literatura infanto-juvenil de 2011 para o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores. Para além disso, tanto este título como o “Sabes onde é que os teus País se conheceram?” figuram na lista de “100 livros para o futuro” apresentada recentemente pela delegação oficial de Portugal na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha. Como encaras este reconhecimento? Abriram-se novas portas e desafios?

Essas distinções, que nos dizem haver quem acredita no nosso trabalho, funcionam como um estímulo capaz de nos levar a tentar superar tudo o que já fizemos. Nessa medida, pode dizer-se que nos abrem novos desafios.


“Perguntei a uma criança de cinco anos o que era um político. «Um político é um pássaro com muitas cores», respondeu ela… O «pássaro de muitas cores» não me saiu da cabeça. O político desta criança existiria? Onde se encaixariam os «pássaros» na política?” Este texto foi tirado da sinopse do teu livro “Contos pouco políticos”. Como foi a experiência de falar de política a crianças?


Quando iniciei esse projecto ainda não era mãe, mas já havia uma criança a inspirar-me, o que mostra que sempre fui muito atenta às manifestações da infância. Claro que na sua cabeça aquele político existiria tal como ela o descrevia. A minha preocupação com esse livro não foi tanto falar de política a crianças mas sim aproximá-las dos políticos, para lhes mostrar uma faceta diferente, para lá da pose circunspecta, do discurso grave e das roupas cinzentas que estão habituadas a ver pela televisão. Queria que as crianças soubessem que nos políticos, à parte a sua função, pode permanecer uma dimensão de sonho e imaginação.


Das cinco biografias infanto-juvenis que publicaste, “Chamo-me… Amália Rodrigues”, “Almeida Garrett”, “Michael Jackson”, “Amélia Rey Colaço” e “Almada Negreiros”, qual te deu mais prazer e porquê? Que outras personagens históricas gostarias de abordar?

Todas essas personagens me deram prazer a abordá-las por uma razão ou outra: ou porque me identificava com elas, ou porque descobri sobre elas facetas que desconhecia ou já tinha esquecido, ou porque uma delas foi a primeira e me iniciou num certo tipo de trabalho, etc. Gostava talvez de escrever sobre outra mulher, porque acho que ainda permanece a tendência para secundarizar as mulheres nos retratos de figuras proeminentes e porque gosto de que haja espaço para a igualdade. Mas a verdade é que agora me concentro noutro tipo de escrita, que permite soltar mais a imaginação.


Inês és também conhecida por te entregares a causas nobres (aliás conhecemo-nos num evento da Estée Lauder para apoiar a associação Laço). Escrever livros para jovens sobre a temática do cancro não será certamente fácil. Como foi a experiência de escreveres “O estranho caso da 3 professoras” e “Festival de Verão em risco!”?

Tenho neste momento quase pronto o guião para um novo livro dessa série, relacionado com o cancro do pulmão. Tem-se tratado de uma experiencia difícil por lidar com o sofrimento das pessoas, implicando uma recolha de elementos que me deixam triste e apreensiva. Mas ao mesmo tempo tenho a compensação de poder contribuir para uma causa positiva, que é a da prevenção de algumas variantes da doença e a do diagnóstico precoce de outras, elementos considerados hoje em dia fulcrais na estratégia de minimização dos efeitos do cancro. Depois há ainda o lado lúdico de juntar tudo isto em histórias de aventura e mistério, por forma a sensibilizar os jovens para estas realidades.


Recentemente escreveste também o livro “Vicente em viagem... a caminho do Rally de Portugal", com ilustrações de Sebastião Peixoto, que o Automóvel Club de Portugal publica como o seu primeiro livro de prevenção rodoviária infantil. Esta é mais uma causa para a qual devemos alertar os nossos filhos. Inês sentes que como escritora de livros infanto-juvenis tens um papel relevante na formação destes jovens?

Nada obriga a que assim seja, mas acho que muitos livros infantis podem ter também uma função pedagógica e formativa. Sinto-me bem ao aplicar a minha imaginação na transmissão de algumas mensagens nesse sentido, que creio serem consensuais e positivas.


És uma mulher preocupada com a tua imagem. Como definirias o teu estilo?

De uma forma ou outra, todas as mulheres se preocupam com a sua imagem, mas eu não penso muito nisso, pelo que não sei responder directamente à pergunta. Posso no entanto citar um amigo que, com muita piada, me associa ao estilo Botticelli, dizendo que projecto uma imagem de Primavera. Não querendo parecer pretensiosa a tal respeito, gosto, de qualquer modo, dessa ideia da imagem de Primavera, com a qual me identifico.


Quais os teus rituais de beleza?

Insisto em esticar o cabelo, mesmo quando me dizem que fica melhor ao natural. E preocupo-me em aplicar creme no rosto de manhã e à noite (aqui para desmaquilhar). Quanto ao resto, devia ir ao ginásio e não vou e devia ir levar mais vezes de bicicleta o meu filho à escola e opto pelo carro. São das tais coisas que guardamos como resoluções do próximo Ano Novo.


Tens algumas marcas de eleição ou usas peças com que te identificas independentemente da etiqueta?

A diversidade é enorme. Há muitas marcas interessantes e também coisas boas com e sem marca. No meu caso, já sei o que devo experimentar e me fica bem, independentemente do fabricante. Mas é claro que a etiqueta não nos é totalmente indiferente, até porque associamos design, qualidade e resistência a certas marcas.


Consegues eleger um perfume de eleição ou usas várias fragrâncias de acordo com o teu estado de espírito?

Não vario muito e misturo pouco. Quando decido usar um perfume, faço-o com alguma fidelidade e continuidade. E quando mudo é porque me apetece realmente mudar, o que até pode ter a ver com alguma mudança na minha vida, significativa ou não. Na minha memória olfactiva, mantenho fragrâncias associadas a certas fases do meu passado, e até já me aconteceu gostar de um perfume e não o usar por associá-lo a um período diferente da minha vida.


Locais predilectos/inspiradores para escrever?

Em casa, sossegadinha. Mas tenho a certeza de que também me entenderia às mil maravilhas num hotel virado para o mar ou na doçura alentejana.

Qual a viagem que já fizeste ou gostarias de fazer com o teu filho José?

Ele vai adorar ir à Eurodisney, mas por enquanto ainda tem medo de outros bonecos maiores do que ele, que observa num misto de fascínio e terror, mantendo sempre uma distância de segurança. De qualquer modo, o meu filho é já um bocadinho bon-vivant, uma óptima companhia para quem qualquer sítio é perfeito.

Quais são os teus escritores de referência?

Já atrás falei dos perfumes, e acho que os escritores são parecidos: vão e vêm nas nossas vidas, deixando também diferentes fragrâncias em nossa casa. Por isso é uma injustiça pôr-me a citar autores de referência, já que as referências são voláteis com o tempo. Não que desapareçam, mas porque aparecem outras. Aprecio uma escrita tranquila, romântica, poética. E porque, apesar de tudo, há valores perenes, atrevo-me a mencionar Pessoa, Sophia, Lobo Antunes ou Proust.



Qual o livro que ainda gostarias de escrever?

Gostarei de certeza de escrever qualquer dos livros que espero poder vir ainda a assinar. Escrever é uma aventura cada vez mais difícil numa sociedade como a nossa, implicando dedicação, esforço e temperança, quase como se esse exercício se aproximasse do sacerdócio. Acabo pois por admirar todas as pessoas que, entre nós, escrevem e vivem da escrita.

Que conselho darias aos jovens escritores?

Considerando-me ainda jovem, não tenho a pretensão de dar conselhos. Estou é disponível para ouvir bons conselhos. De qualquer forma, quando vou a escolas, gosto de incentivar as crianças/jovens a acreditarem nos seus sonhos.



Agradecimentos:




 


6 comentários:

  1. Camen como sempre, um excelente trabalho, uma maravilhosa entrevista. Eu sou sincera, sempre que leio as tuas entrevista, estou tam concentrada que me sinto como se estive-se ao vosso lado a ouvir...isto porque gosto muito da tua maneira de escrever. És uma jornalista fantástica e com um estilo super charmoso, pois como sempre adoro o teu modelito, de alto a baixo XD

    Beijoka Boa***

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  2. Que querida;) Deixas-me sempre sem palavras mas é muito bom saber que as minhas entrevistas alcançam o seu propósito de informar e ao mesmo tempo criar empatia com o leitor.

    Um grande beijinho para ti.

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  3. Olá amiga!
    Como sempre, adorei! Excelente entrevista e a entrevistada também me cativou! :)
    Continua assim, que adoro!
    Beijos grandes,
    Rita

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  4. Com pena minha não pude estar presente mas gostei de "conhecer" a Inês. O espaço é muito giro, a entrevista bem estruturada e a dinâmica e empatia entre as duas sente-se. Parabéns ;)

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  5. Mais uma maravilhosa entrevista!Parabens Carmen pela dedicaçao que das ao teu trabalho! um beijo meu com saudade

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  6. Obrigada querida Mia:) Saudades...

    Beijo grande.

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