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1 de janeiro de 2018

Leonor Seixas | Na Primeira Pessoa


A Leonor Seixas foi-me apresentada por uma amiga comum e senti por ela uma empatia imediata, uma boa energia que me fez desde logo ter vontade de a entrevistar! Encontramos-nos num final de tarde, quase na véspera de Natal, no Hotel Iberostar Lisboa, para uma conversa animada e cheia de luz, onde o tempo voou. A Leonor é uma cidadã do mundo e isso sente-se na forma como partilha  as suas vivências e na simpatia com que trata quem a rodeia. Terminei a entrevista de coração cheio e com a sensação que ganhei uma nova amiga.


De bailarina clássica a actriz, era mesmo este o teu papel?

Eu tenho tantas saudades do ballet, é algo que eu sinto imensa falta…Mas acho que foi assim uma coisa orgânica que aconteceu, acabei por continuar nos palcos, não é? Em vez de dançar acabei por representar. Também às vezes danço a representar. Acho que o palco está lá, desde sempre! Na dança há uma disciplina muito rigorosa e eu continuo a tê-la e acho que o meu profissionalismo vem muito deste tipo de vida. É uma disciplina muito mais rigorosa, em todos os aspectos, do que a representação. Mas pronto aconteceu, não posso dizer que me fartei nem nada disso, mas percebi que não era a minha praia a 100%. Comecei a deixar de me divertir. Não quero estar a ser muito ingrata nem injusta porque eu amo, amei o ballet e faz parte de mim, mas deixei de me divertir. Na representação realmente sinto-me em casa, apesar de ter trabalhos melhores do que outros, às vezes personagens mais giras do que outras. Há produções que correm melhor, mas tem muito mais a ver comigo. Acho que quando a pessoa está completamente apaixonada é sempre tudo bom, não é? Se calhar eu não estava assim apaixonada ao ponto de ser aquilo, só ser aquilo!


Consideras que o facto de os teus pais serem ligados às artes (mãe pianista, pai cantor lírico da companhia da opera nacional de São Carlos) influenciou a tua decisão de escolheres esta profissão?

Não sei, quem sabe, (risos) é possível, quer dizer eu cresci nisso! Há coisas muito boas. Depois há outras…Tenho uma sensibilidade por exemplo para a música que é uma chatice. Cresci no meio das óperas, na música clássica. Para mim é tudo muito normal, não é nada de extraordinário, é o meu berço! Se influenciou ou não, não sei. Às vezes há pessoas filhos de artistas que de repente viram médicos, porque querem exactamente o oposto. Houve qualquer coisa genética que realmente me pôs lá, tinha de ser. Uma pianista, um cantor, uma actriz, tudo em artes mas diferentes.


Tens feito telenovelas, teatro, cinema e já tiveste oportunidade de actuar fora de Portugal, no Brasil e Estados Unidos. Qual o teu registo preferido? E em que país gostas mais de trabalhar?

Isso é muito complicado. Sou uma privilegiada porque consegui fazer tanta coisa dentro da minha área, que nem todos os actores conseguem. São tudo processos muito diferentes. Eu gosto muito de cinema, das câmaras, mas depois também gosto muito do teatro. Não sei, não consigo… Também gosto muito do processo da novela, apesar de depois a meio tornar-se bastante cansativo. Não consigo mesmo escolher, acho fundamental fazer os três. Para mim não há aquela coisa de “aquela é actriz da novela “, é uma actriz ponto. Não se pode catalogar um actor só por um tipo, isso não existe.

Em termos de países, eu sinto que sou uma mulher do mundo, portanto quero continuar a representar pelo mundo todo, seja Estados Unidos, Brasil, Portugal. Agora quero muito ver se consigo fazer projectos de língua portuguesa. Nós nem nos apercebemos que a língua portuguesa está espalhada pelo mundo inteiro, não é? Índia, África, Brasil, há imensas comunidades portuguesas nos Estados Unidos (Boston, New Jersey, etc). Gostava muito de fazer projectos, por exemplo, para conseguir levar uma peça (talvez seja mais fácil) ou um filme, às comunidades portuguesas e mostrar que nós somos o mundo também. Estamos espalhados por aí e as pessoas nem se apercebem disso. Gosto de estar por todo o lado, faz parte de mim, também preciso disso para respirar, é bom!


Viveste e estudaste nos EUA, quais as principais diferenças que encontraste?

Cada país é muito específico. As pessoas…Engraçado como é que estamos todos no mesmo planeta e, por exemplo, mesmo nós aqui ao lado de Espanha e são tão diferentes de nós. A maneira de viver, a politica, a religião, as monarquias tão perto daqui também, tudo culturas muito diferentes. Noto muito que as pessoas são do próprio país. Têm maneiras de estar, coisas culturais, de educação, de crescimento, que são intrínsecas à pessoa. Em termos artísticos há muita diferença. Nos Estados Unidos, por exemplo, há muito mais experiência, mas também muita coisa má. Nós só vemos as coisas melhores. Do Brasil o mesmo, são países enormes. Nós somos muito mais pequeninos, mas também grandes no nosso pequenino espaço. Basicamente o que eu noto diferença, tanto em termos artísticos como pessoais, são aspectos culturais, de cabeça, de educação. Acho que é um bocado por aí. Há coisas que é mesmo “isto é à americana!” Os americanos fariam isto. Têm coisas óptimas, têm coisas menos boas, assim como aqui.


Como foi participar na serie Glee ao lado de Lea Michelle e de Sarah Jessica Parker?

Gostas muito, não é?! (risos) Toda a gente, esses famosos todos com quem andei ali misturada. Foi giríssimo! Acho que foi só um dia ou dois, já não me lembro exactamente, já foi há um tempinho, mas foi muito interessante. Estava lá o elenco inteiro. Foi um dia pesado, muitas horas, toda a gente muito humilde, simpática, concentrada, cada um a fazer o seu trabalho. Foi óptimo, foi uma experiência incrível. Acaba depois por ser normal estar no meio daquelas pessoas que para nós são assim tão distantes e tão grandes. O que acontece com os Estados Unidos é que as pessoas lá são famosas no mundo inteiro. Nós aqui somos famosos, mas depois vamos para qualquer país e ninguém sabe quem somos. Parece que há assim um peso na dimensão, mas depois estando lá e estando com as pessoas é tudo muito normal. Hollywood é um meio muito mais pequeno do que se imagina. Obviamente é uma indústria enorme, mas Hollywood é pequenino. As pessoas conhecem-se, as pessoas falam, sabe-se das histórias, das coisas, é como aqui (risos).


Com que outros actores internacionais gostavas de contracenar?

Hum tantos, olha posso falar-te mais de realizadores. Adorava trabalhar com o Woody Allen, adorava! Adorava trabalhar com o Almodôvar…Tenho imenso medo por isso gostava, tenho mesmo medo de trabalhar com ele! Deve ser todo um processo. (Tens mais medo de trabalhar com ele do que com o Woody Allen?) Tenho, mas se calhar imagina depois até trabalho com os dois e digo-te “olha foi facílimo, correu lindamente e com o Woody Allen não, foi super difícil”. Já conheci o Woody Allen uma vez por acaso aqui em Portugal. Posso dizer-te (isto é sempre muito difícil especificar uma pessoa porque há muita gente e estilos que eu gosto) que a Kate Winslet é uma das minhas actrizes favoritas. Adorava contracenar com ela, acho que vou aprender imenso! Merryl Streep, é super cliché, mas é verdade, a mulher tudo o que faz é perfeito. O meu actor favorito, Benedict Cumberbatch, esse definitivamente podes pôr no top dos tops, que para mim é o melhor actor do mundo! Há ele e depois há o resto dos actores. Definitivamente eu idolatro esse homem. obviamente gostaria muito de trabalhar com ele porque gostava de saber como é que ele faz aquilo que faz, porque eu não percebo. Eu tenho a mesma profissão e não sei como é que ele faz o que faz, porque é genial! Gostava muito do Philip Seymour Hoffman, foi uma perda enorme, gostava muito, muito dele! Gostava de trabalhar com toda a gente e eu acho que a pessoa aprende sempre com tudo e todos.


Para interpretares diversas personagens acabas por ter de ser um pouco camaleónica. Como te preferes ver loura, morena, ruiva?

Tudo! Eu acho que até às vezes onde se vê que um actor é bom é justamente conseguir modificar-se. Por exemplo, há actores que são óptimos mas que fazem muito aquele mesmo género. Às vezes também a indústria chama para isso, tanto aqui como lá. Já ouvi actores a reclamar “mas eu não sou chamado para fazer outro género”, é uma pena. O Tom Hanks teve essa oportunidade, cresceu a fazer comédia, de repente deram-lhe um filme dramático e a partir daí a carreira dele mudou completamente. Acho que é muito importante conseguir ser-se diferente nos papeis e há actores que são muito bons mas que fazem o mesmo género em vários personagens. Uma coisa que é muito importante também no ser bom actor ou não é ser bem dirigido, tanto pelo realizador como pela direcção de actores. As pessoas pensam que não mas é muito importante ter uma base à volta.



Gosto muito de mudar de look, acho que isso é fundamental, era uma coisa que eu no início, quando estava a estudar, achava que não era importante. Ah a parte exterior não interessa, interessa é o que a gente sente, o personagem vem daí… Não é bem assim. A maneira como a personagem se veste, se usa salto alto anda de uma maneira, se usa botas anda de outra, se anda sexy é um estilo, portanto muda tudo. Tu como mulher sabes isso, e há muitos homens que também o sabem. Quando estás loira sentes-te de uma maneira, quando estás morena sentes-te de outra. Acho que toda essa parte exterior, que só percebi mais tarde, influencia imenso a representação, imenso! As roupas influenciam muito. Ainda há muito pouco tempo, não vou dizer qual, fiz uma personagem que eu não concordava em nada, quando digo nada, é nada com o guarda-roupa e isso sempre me influenciou. Acho que não tinha nada a ver, mas tentei adaptar-me, porque depois também há todo um trabalho dessas pessoas no qual é complicado às vezes meter-nos. Por exemplo, a maquilhadora tem uma opinião que aquela maquilhagem é para aquele personagem e pronto às vezes é difícil equilibrar. Nós temos textos diferentes e, portanto, toda a parte de estudo do texto faz crescer um personagem, faz crescer toda uma parte psicológica interessantíssima e contar a história dessa maneira. Depois essa parte exterior vem com isso tudo. Há a louraça que é sexy, a louraça que não é sexy, etc. O que interessa é contar bem a história.


Qual o papel que ainda te falta representar?

Ai tantos, tantos! Olha apetecia-me imenso agora fazer uma vilã, agora estava com muita vontade de fazer uma mazona, apetecia-me imenso! Mas fazer uma mazona diferente, gostava de fazer um personagem que fosse mesmo bem escrito! Não aquela cliché, mas queria muito fazer. E anda a apetecer-me muito fazer comédia, realmente é uma coisa que eu tenho feito pouco. A pessoa vai muito mais bem-disposta para casa, muito mais (risos). A magia de ver a equipa a rir e ver as pessoas todas à volta a achar graça ao que estás a dizer é o máximo! Os dois personagens que eu gostava, agora assim especificamente…Eu sempre quis fazer a Julieta de Shakespeare, depois acabei por consegui-lo. Havia assim umas personagens que eu sempre quis fazer, acho que já tenho feito algumas, mas basicamente o que eu gosto é de personagens que são bem escritas. Às vezes acontece às vezes não (risos). Acho que era mais uma vilã, como agora ainda por cima estou a fazer comédia no teatro assim podia balançar, isso era bom!


Como te defines como mulher?

Hum, ui não sei, estou no processo de me conhecer, acho que isto é um processo da vida toda. Creio que sou uma mulher com boa energia, tento ver as coisas boas da vida, tento ver as coisas de uma perspectiva positiva. Agora mais do que nunca com coisas que a gente vai passando, experiências que vamos vivendo, tentar realmente ser feliz, tento ser feliz com o que tenho. Às vezes nunca estamos satisfeitos com o que temos, queremos sempre mais, embora eu acho que seja bom termos objectivos e termos vontades. A pessoa que só quer aquilo e não quer mais nada também não tem muito interesse. De resto acho que sou uma mulher simples.

Adoro viajar, adoro comer, e gosto muito de ajudar as pessoas, gosto de ver as pessoas felizes à minha volta, gosto de fazer surpresas. Adoro o meu trabalho e acho que isso é muito importante. Acho que uma pessoa que faz o que gosta já tem quase metade de si bem resolvida.


Acima de tudo tento ter luz e dar luz, acho que isso é muito importante. Estamos aqui no restaurante “Luz” e nada melhor, e estamos no dia da luz! Cada vez mais vejo que o ser humano é, atenção não quero generalizar, nem magoar, nem ferir susceptibilidades, muito virado para si e estamos numa era de que as pessoas estão ocupadas, as pessoas estão frustradas de certa maneira. Tento de alguma forma poder dar alguma esperança e luminosidade às pessoas que se calhar estão a viver em lugares mais escuros. Sou apaixonada pelo trabalho, apaixonada pelos meus amigos, tenho poucos mas bons. Quero viajar, continuar a representar, amar, ser amada, continuar a conhecer-me. Ninguém se conhece, é um processo!


Novos projectos em carteira?

Acabei agora uma série para a RTP2 chamada Idiotas, que eu já disse que devem fazer “as idiotas”, eu gostava de ser uma! (risos) Porque eu acho que a série está tão divertida, e é um projecto que me deu muito prazer fazer, não só porque foi comédia, como é tudo com gente nova, e quando eu digo gente nova não é de idade. Gente nova porque acho que Portugal tem realmente que dar oportunidade a novos realizadores, escritores e malta que está a sair das escolas, do conservatório, pessoal da equipa. 

Estreia na RTP, acho que é RTP2 , se não me engano em Fevereiro ou Março. Estou também com ensaios numa peça para estrear em Janeiro, depois digo-te o dia exacto, que não me lembro se é 16 ou 18, no Teatro da Luz, “da Luz!” Teatro da Luz, é verdade, nem tinha pensado nisso, que maravilha, pois é nem tinha pensado nisso! Depois acho que mais coisas virão, vamos com calma mas mais coisas virão!


Quais os teus principais desejos para 2018?

Ai, ser feliz! Isto é tão cliché mas, ter paz, felicidade, e agora uma palavra que ando a usar muito, que gosto muito, que é abundância. Acho que é por aí e, lá está, aprender a ser feliz com o que se tem porque, por exemplo, este ano eu vivi com algumas ansiedades. Nós nunca estamos satisfeitos com o que temos, é uma pena. Portanto acho que é um bocadinho curtir exactamente a viagem. Eu odiava quando me diziam isso, mas curtir a viagem, porque as coisas chegam. O que tem que vir vem, as coisas chegam ao seu tempo e se não chegarem não chegam. A pessoa viveu naquela parvoíce e naquela ansiedade, não vale a pena. Portanto abundância, tudo com tranquilidade e felicidade e champagne e luz…E luz! (risos).

Agradecimentos Restaurantes "Luz"



Créditos Fotográficos Catarina Fernandes Photography


Look

Dress Zara | Shoes Rockport

Make-up Burberry | Hair by Tita Martins for Anton Beill Haircare


Feliz 2018!

4 comentários:

  1. Uma excelente entrevista e uma oportunidade fantástica para conhecer a Leonor Seixas. Parabéns também à Catarina Fernandes pelas fotografias.

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