Sobre Mim Entrevistas Artigos Produções Lifestyle

19 de novembro de 2016

Rita Redshoes | Na Primeira Pessoa


Rita Redshoes acaba de lançar o seu álbum Her e este é o momento perfeito para conhecer a rapariga dos sapatos vermelhos, que venho acompanhando desde o seu primeiro álbum Golden Era.


Para além da sua doce timidez, Rita conquistou-me pela simplicidade e a forma terra-a-terra como vê o mundo, apesar do seu já longo percurso e das conquistas que tem vindo a alcançar...Já não usa os sapatos vermelhos mas levou um casaco na cor blue Tiffany's ;) 


Rita Redshoes…Qual a razão do nome escolhido? E porque “caíram” os sapatos? 

(Risos)… Há uns anos atrás, em 2007, decidi que que ia para a frente com a minha carreira a solo. Já tinha um monte de músicas lá em casa e tinha de lhes dar algum fim e sabia que não queria usar o meu nome de família, porque é relativamente comum. Foi difícil encontrar este nome… Apareceu-me assim uma manhã. Acordei e andava à volta deste dilema e surgiu este nome. Acho que agora é mais fácil de perceber, mas, olhando para trás, creio que tem a ver com inúmeras historias e contos infantis que li quando era pequenina e com os desenhos animados, que mostravam que os sapatos vermelhos tinham um poder qualquer e quem os calçava ficava com poderes ou hipnotizado! Atraiu-me porque eu sou naturalmente tímida. Agora estou melhor mas já fui muito pior. A ideia de ir para o palco era um bocadinho contra a minha natureza e os sapatos eram quase como se fossem a minha capa de supermulher, que me davam esse alento para subir ao palco e fazer música. No fundo achei essa analogia, para além do lado feminino da imagem e do atrevimento que são uns sapatos vermelhos. Uma assertividade...Gostei, gostei que do que essas imagens ligavam com a minha personalidade e com a música.


Mulher é um dos temas do álbum Her. Em The Other Women – O mundo nas canções d’Elas” fazes também uma homenagem às mulheres. O tratamento desigual entre sexos continua a ser uma realidade? É importante fazer esta chamada de atenção? 

Eu acho que sim, infelizmente, mas sim! Claro que nós na sociedade em que estamos, na Europa Ocidental, se calhar é uma coisa um bocadinho menos visível. Ela esta lá mas se formos pensar em países como em África ou mesmo no Oriente, deparamo-nos com realidades em que as mulheres são de facto maltratadas. Os direitos humanos são muito questionáveis, e não, não têm as mesmas oportunidades, de todo! No seu dia-a-dia têm um tratamento diferenciado, negativamente, mas aqui também existem outras questões, e sobretudo quando eu falo desta questão da mulher…Sou obviamente apaixonada, adoro ser mulher, ainda bem que nasci mulher! Gosto mesmo muito de ser mulher…Mas também faço um bocadinho este tipo de pensamento, não só do lado da perspectiva da mulher mas na perspectiva do feminino também nos homens, que eu acho que é uma coisa que a sociedade de alguma forma foi estancando e foi pondo quase como uma fraqueza. Acho que é importante que não se sintam castrados por isso, que é bom que tenhamos também os homens em contacto com o seu lado que é associado à fragilidade, mas que, ao mesmo tempo, é uma grande fortaleza, não é?…E, portanto, este disco é um bocadinho isto tudo, não só do lado da mulher.


Infelizmente Hillary Clinton perdeu a corrida à Casa Branca. Achas que o facto de ser mulher teve alguma influência neste desfecho? 

Bem, por algum motivo seria a primeira mulher presidente nos Estados Unidos, portanto isso diz qualquer coisa. Que as mulheres não têm tido as mesmas oportunidades, enquanto falamos de postos de liderança e de decisões mais sérias, são estatísticas feitas, em que se vêm muito menos mulheres do que homens nesses cargos. É uma realidade! Portanto alguma coisa terá que ver. Aquilo que mais me impressiona nesta história é como é que, e a percentagem, que acho que não é pouca, o número de mulheres que votaram no Donald Trump! Uma pessoa que tem princípios machistas como já o demonstrou, entre outros…Mas isso é curioso, o que é que leva mulheres a votarem num homem assim? E isto é uma questão muito profunda, ou seja, quando nós falamos do feminismo achamos que à uma guerra aberta contra os homens, mas as mulheres são normalmente as primeiras, enfim, a serem responsáveis por esta questão das mulheres às vezes não serem tratadas da forma como devem e com o espaço que devem e isto mostra-o mais uma vez, não é? Quando temos alguém que vai decidir o futuro de um país e que tem princípios nitidamente machistas, como é que há mulheres que votam num homem assim?


O teu novo disco foi produzido em Berlim por Victor Van Vugt, que trabalhou com nomes como Nick Cave, PJ Harvey e Depeche Mode. Conta também com a participação do baixista Greg Cohen, do baterista Earl Harvin e Knox Chandler (arranjo de cordas e guitarra). Qual a importância de teres trabalhado com estes talentos? Como foi esta experiência? 

Foi uma experiência maravilhosa, eu senti-me muito bem! Ia algo receosa porque ia para um ambiente que não era o meu, com pessoas que eu não conhecia de lado nenhum, pessoas mais velhas, com muita experiência e achei de certa forma que poderia perder o fio à meada, a certa altura…Mas não, senti-me muito bem! Não me senti em casa porque Portugal é Portugal, mas senti-me muito bem-recebida e trataram-me muito bem e sobretudo respeitaram muito a minha música e a minha vontade. Estavam sempre preocupados em tentar ouvir aquilo que eu realmente queria para as minhas canções, isto apesar destes currículos fantásticos que eles têm. Podiam olhar para mim como uma miúda, claro que eu acho que também não tenho essa postura, mas eles também não a tiveram. Não tive de estar ali a impor-me e a definir espaços e isso foi uma coisa que aprendi que foi muito bonita, porque de facto eles trouxeram muitas coisas boas para o disco, mas sempre respeitando aquilo que eu andava à procura e eu acho isso uma aprendizagem e foi uma grande surpresa para mim… Uma óptima surpresa, de esperança também, ou seja, que é possível, que os homens tenham a capacidade, mesmo num ambiente masculino, de perceber que não há diferenças, que são pessoas, e, portanto, tentar respeitar aquilo que alguém quer independentemente de ser uma mulher ou um homem.

 
Que sonoridades podemos esperar neste novo álbum? 


Eu acho que vai pegar um bocadinho no meu primeiro disco, uma sonoridade mais clássica, diria assim, onde a melodia é aquilo que mais se evidencia, e são, enfim, são histórias. Treze canções onde conto histórias de perspectivas de mulheres ou de um lado feminino. É marcado nitidamente pelo quarteto de cordas que vai do início ao fim do disco, pelo meu piano e pela palavra. Havia muito esta vontade minha e do Vítor de a palavra estar à frente e, portanto, esta mensagem sobre estas mulheres, sobre a mulher, de estar muito presente e de dar espaço na sonoridade a isso, dar essa primazia…E acho que é o que acontece!


Pela primeira vez cantas na nossa língua materna. Qual foi o motivo e o que significa para ti cantar em português? 

Tinha vontade de o fazer já há alguns anos, depois de ter feito precisamente aquele espectáculo, “The Other Women”, onde cantei pela primeira vez em português, uma música da Xana dos Rádio Macau. Gostei muito dessa experiência e ficou cá essa vontade, que cresceu, e nestes últimos anos até à feitura deste disco tive outras experiências em que cantei em português. O facto de ter trabalhado também com o meu irmão, que tem um projecto que se chama Sr. Vulcão, onde ele escreve as letras em português, e escreve muito bem, todas essas experiências de certa forma contribuíram para esse bichinho ficar aqui cada vez mais com vontade de virar qualquer coisa. Curiosamente, a primeira canção que surgiu para este disco foi “O Vestido”, que foi em português, e que depois colaborei a meias com o Pedro da Silva Martins. Portanto, estava cá esta vontade e o que aconteceu, acho, foi sentir de alguma forma que estas canções, que me apareceram espontaneamente, genuinamente em português, não senti necessidade nenhuma de as traduzir para inglês, como também não faço o contrário. Nasceram em português, senti que essa era a verdade delas e senti-me na obrigação de as respeitar. 


Rita, no teu livro “Sonhos de uma Rapariga Quase Normal”, narras encontros imaginários com personagens como a Maria Callas e Obama. Pegando nesse mote, se a realidade te permitisse trabalhar com a inigualável Maria Callas, o que gostarias de lhe propor? 

(Risos…) Eu acho que dificilmente conseguia propor-lhe alguma coisa…. Pedir-lhe-ia para cantar, quer dizer para poder estar assim ao pé dela, o mais próximo que eu conseguisse para ouvir a voz dela a sair assim do corpo…Acho que era aquilo que eu pedia, não conseguiria pedir mais nada!


Falando de literatura, o que pensas do facto de Bob Dylan ter sido galardoado com o prémio Nobel nesta categoria? 

Eu gosto, gosto…Guerras e quezílias à parte, se um músico é escritor, se é menos escritor do que um escritor…Enfim, eu sou grande fã do Bob Dylan e, portanto, para mim é difícil. Tive que ficar contente, porque gosto muito dele, de muitas canções e de muitos poemas dele e na verdade aqueles poemas foram musicados. Obviamente ele se calhar escreve-os com esse propósito, mas poderia não ser, e não deixariam de ser poemas na mesma e eu acho que é isso que deve prevalecer. Se é suficiente para se ser um Prémio Nobel…Claro que haverá certamente muitos escritores muito interessantes a escrever coisas maravilhosas, mas também às vezes tem a ver com o momento, o momento da História onde se está e eu gostei sobretudo do atrevimento da Academia em atribuir-lhe o Prémio Nobel. Isso quer dizer que a criatividade, quando aquilo que artisticamente nasce é bom, não tem de ser assim tão enclausurada em gavetas de que isto é literatura, isto não é literatura, acho eu!


Audrey Hepburn foi também uma das tuas musas inspiradoras, porquê? 

Foi muito curioso que eu até quase ao início da minha adolescência não conhecia a Audrey Hepburn, nunca tinha visto nenhum filme com ela, nem nada. Houve um dia que estava em casa com os meus pais e de repente eu olho assim para a televisão, e isto é presunçoso, porque Audrey Hepburn é uma pessoa lindíssima, uma mulher linda…Mas eu olho, e acho que foi pelas sobrancelhas, “ah parecia eu na televisão!” (risos). E lembro-me que a minha mãe começou-se a rir e depois disse-me quem é que ela era e comentou, “ah pois é filha nunca tinha pensado nisso mas tens umas parecenças, assim os olhos e a cara muito fininha”.  A partir daí obviamente fui descobrir a Audrey Hepburn e aí consegue-se perceber através de fotografias e dela como actriz, e algumas frases que estão espalhadas que ela proferiu, que de facto era uma mulher que, para além da beleza exterior, era muito bonita interiormente, muito inteligente, doce, ligada às pessoas. Isso é algo que eu aprecio muito, seja mulher ou homem, essa ligação ao real, o terra-a-terra, e depois é um símbolo obviamente de moda, de elegância, que lhe é natural, quer dizer vê-se que não é uma coisa super estudada e forçada, que é ela, e isso é sempre bonito de se ver,


Quais são as tuas principais influências? 

Eu acho que a vida em si, as pessoas, é aquilo que mais me influencia e inspira-me muito. Depois claro há a literatura, os filmes, os outros músicos, e aí muitas mulheres. No outro dia estava a arrumar os meus discos todos e percebi que eu tenho inúmeros, quase a maioria são discos de mulheres, cantoras e compositoras. Portanto isso acaba tudo por me influenciar, mas de facto são as histórias da vida, que vou vivendo, ou vendo, ou que vou ouvindo e que depois ponho mais uns acrescentos da minha interpretação das coisas e que acaba por ir parar à música e a letras. Acho que de facto a vida é que é inspiradora!


Já fizeste algumas músicas para cinema. Tens algum realizador com quem gostasses de vir a trabalhar? Imaginas-te no lado da representação? 

Bom há uns realizadores que eu adorava! (risos) Eu acho que o meu preferido seria o David Lynch, sem dúvida, tem um universo muito onírico, que é uma coisa que me diz muito. Assim se me perguntassem, sim, era o realizador vivo com quem eu provavelmente gostaria de trabalhar, com quem eu gostaria de fazer música…E quanto a representar, eu acho que sou demasiado tímida… Há um lado que quando se escreve e quando se está em palco, há um lado de representação, mas eu não sei se…Uma coisa é eu aparecer num videoclip em que estou a cantar, outra coisa é estar à frente de uma câmara e ter que dizer um texto convincentemente e entrar num personagem. Eu não sei se tenho qualidades para isso e se tenho essa capacidade, mas é um mundo que me interessa muito claro!


Tens algum ritual antes de entrar em palco? 

Aqueço sempre a voz, isso é sagrado, e tenho ali uns momentos de concentração em que no fundo faço uma espécie de meditação, que me leva um bocadinho ao que é que eu estou ali a fazer e qual é o propósito de eu estar ali e que vá ser uma comunhão com aquelas pessoas que ali foram… Mas assim rituais, rituais, sei lá puxar três vezes o cabelo, assim não, não tenho (risos).


Tal como as sonoridades dos teus álbuns, a tua imagem é também mutável. Identificas-te com algum estilo em particular ou a versatilidade é mesmo a tua forma de estar? 

Agradeço o elogio, acho que sim, tenho, amigas minhas que às vezes brincam comigo, que é, um dia vens pareces um cowboy, outro dia pareces altamente sofisticada de citadina…É verdade, eu às vezes é o que me apetece. Acordo e sinto-me de uma maneira, às vezes só quero ténis e calças de ganga largas, o mais largo possível e uma t-shirt e está óptimo, sinto-me super bem nessa pele, como há dias que apetece-me vestir e sapato de salto alto. Gosto muito dessa liberdade e não, acho que nunca deixo de ser eu, porque me sinto bem e, portanto, não tenho receio de vestir outro tipo de coisas. Acho divertido, acho sobretudo divertido!


Como te defines como mulher? 

Eu nitidamente sou uma mulher muito ligada à família. Para mim é assim a minha base de tudo, e os amigos. Sou uma pessoa que gosta de pessoas, gosta de harmonia. Sou ambiciosa ao mesmo tempo e tenho muita curiosidade, o facto de estar aqui, tudo, a vida em si, sou uma pessoa curiosa e de alguma forma acho que sou corajosa. Embora me sinta muitas vezes frágil, mas acho que tenho essa coragem do desconhecido, de ir à procura e de ir buscar outras coisas, isso acho que sim!



Créditos Fotográficos LPhotography



Agradecimentos Rio Maravilha



Look

Vestido Zara F/W 16 | Relógio TOUS | Pumps Rockport  F/W 16  | Anéis Sofia Tregeira 


Hair by Tita Martins for Anton Beill Hairdressing


Make-up Miriam for Benefit Boutique 

Sem comentários:

Publicar um comentário