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29 de julho de 2016

Ana Bacalhau | Na Primeira Pessoa


Numa tarde radiante e com o rio Tejo como pano de fundo, encontrei-me com a Ana Bacalhau, a voz por trás dos Deolinda, mas também uma mulher com M maiúsculo. Assumidamente feminista, tenta fazer um mundo melhor ao abraçar causas solidarias e defender os direitos das mulheres. Se há entrevistas que me acrescentam algo esta foi sem dúvida uma delas. Obrigada Ana, foi um prazer conhecer-te!


Ana, quem são os “Deolinda” ou melhor quem é a Deolinda?

Na verdade, é um facto, são duas perguntas. Os Deolinda, os membros, os músicos que integram a banda, são família em primeiro lugar. Foi assim que nos conhecemos…O Pedro e o Luís são irmãos, meus primos e o Zé Pedro Leitão, o contrabaixista, é meu marido. Na altura, quando começaram os Deolinda, era meu namorado…E, portanto, os Deolinda juntaram-se, este colectivo juntou-se da vontade que já existia há muitos anos, desde que nós começámos a tocar, que foi mais ou menos na mesma altura. Já falávamos em fazer uma banda mas só aconteceu de facto há 10 anos atrás essa reunião. A Deolinda é a personagem que nasceu dessa reunião, desse colectivo de músicos, que foi ganhando forma e personalidade com as canções que nós íamos tocando, íamos construindo repertório no início...Olhámos para aquilo e tinha lá uma personagem feminina e achamos por bem dar à banda o nome dessa personagem, porque era ela quem contava e cantava as canções, não era a Ana…. Assim nasceu a Deolinda e os Deolinda!


Quem faz o teu dia quando te “diz bom dia”?

Ai, acho que qualquer pessoa que diga bom dia faz o meu dia…Sou lisboeta, sempre vivi numa grande cidade (grande à escala portuguesa, não é?!) É uma cidade que de facto tem essa coisa, é impessoal, e é muito raro alguém quando se cruza dizer bom dia, um estranho dizer bom dia a outro…Eu ia passar férias na aldeia da minha avó, Carvalhal de Morás, ao pé de Tondela, perto de Viseu, e aí toda a gente, mesmo que não se conheça, quando se cruza diz bom dia. Essa importância de dar os bons dias mesmo que não conheçamos, a importância de reconhecer a existência do ser humano e de comunicar com ele…No elevador, por exemplo, se acontece alguma coisa, se o elevador para, nós vamos ter de interagir, portanto é melhor quebrar logo ali o gelo. Acho que faz falta essa comunicação, estabelecer esses elos de ligação e uma expressão tão simples como “bons dias” faz o meu dia principalmente se vier de um estranho, mas também se vier de alguém de quem eu gosto, aí é que sim. O meu marido, os meus pais, os meus amigos, até o meu gato que também me diz bom dia à sua maneira, já conheço os miados diferentes dele, e quando me cumprimenta também faz o meu dia (risos). 



És uma mulher de causas…Como foi participar nas canções “One Woman” promovida pela ONU e “Cansada”, ambas em prol dos direitos das mulheres?

Para mim é muito importante estar ligada à minha comunidade, à comunidade onde me insiro e onde sou mais uma peça do puzzle e este precisa de todos nós para funcionar. Portanto eu sinto responsabilidade em fazer qualquer coisa para melhorar a vida de todos nós e se eu puder utilizar esta atenção, esta facilidade que tenho de chegar aos meios de comunicação, não só para meu beneficio, mas para beneficio de outros, isso é algo que é muito importante para mim. Participar ainda por cima em causas ligadas aos direitos das mulheres, como feminista que sou, é-me importante. “O Cansada”, quer dizer eu disse logo de caras que sim porque vivia e vivo horrorizada com as notícias tristes de mulheres mortas às mãos dos maridos, dos namorados, enfim, é um flagelo do nosso país. Acho que há que trazer isso para a discussão e tudo o que eu puder ajudar farei. Surgiu esse convite e eu pensei, epá, aqui está uma coisa que eu sei fazer, cantar, posso ajudar a trazer este assunto para a discussão, vamos a isso! Aceitei sem reservas! E o One Woman…O convite surgiu através do produtor que estava a gravar o nosso terceiro disco, o Jerry Boys. Era ele que estava também a gravar a canção One Woman e achou que era importante ter a minha participação naquele lote de mulheres e cantoras fantásticas e eu senti-me muito feliz e disse logo, imediatamente, “Jerry, yes of course!” E lá fui eu tic, tic…Cantar o One Woman que pretende dar voz a tantas mulheres de tantas comunidades e culturas diferentes mas somos no fundo uma mulher. Temos preocupações, pensamentos, alegrias partilhadas, comuns, e problemas comuns também infelizmente.


Trabalhaste com o DJ Riot dos Buraka Som Sistema…Um registo bem diferente. Como foi a experiência?

Foi super enriquecedora, adorei, adorei! Dá-me muito gozo porque a minha escola, a minha primeira escola é o rock, depois a segunda escola é o jazz e os blues e, portanto, eu sou muito jazzista neste sentido. Adoro tocar com gente diferente e em registos diferentes para me experimentar, para ver quais são os meus limites, para perceber o que é que eu posso ou não fazer, para aprender com o que os outros me tem a ensinar, e eu tenho tanto para aprender nesta vida com os outros. Portanto, quando surgiu esta oportunidade, tínhamos uma canção chamada “A Velha e o DJ”…Olhamos para os nossos instrumentos acústicos, aquilo falava sobre um caso de amor entre uma senhora dos seus cinquenta/sessenta e um DJ e pensámos, epá só com instrumentos acústicos isto não vai contar bem a história da canção, precisamos de um beat…E nós não sabemos, não temos talento nenhum, não dominamos essa ferramenta e então o Riot, que já se tinha cruzado connosco uns meses antes desta canção, disse-me “epá um dia temos de trabalhar juntos, somos da mesma linha, da linha de Sintra percebemo-nos uns aos outros, não é?” E então convidámos o Riot, ele chegou pôs aquele beat maravilhoso do funaná que encaixou tão bem na Deolinda. Porque eu acho que faz sentido, ou seja, apesar de ser esteticamente um bocadinho diferente do que nós fizemos, na verdade é uma canção muito de Deolinda, dado que é uma canção que ninguém estava à espera e connosco sempre foi assim. Nós quando surgimos com o Fado Toninho e com o Fon-Fon-Fon ninguém percebia bem o que aquilo era da mesma maneira que há muita gente que se calhar não percebe o que é que a Velha e o DJ é, onde é que está, em que campo se encontra...Se é Deolinda, se é Som Sistema…É Deolinda Som Sistema! Acho que é uma fusão fantástica que foi conseguida entre as duas linguagens, que são linguagens que, voltando à linha de Sintra, para mim fazem todo o sentido, porque na linha de Sintra convivem todas essas realidades ricas e distintas que dão projectos como os Buraca e como os Deolinda.


Quais são as sonoridades que te influenciam?

Eu sempre fui rocker mesmo antes de fazer música, de descobrir a minha voz. Foi primeiro o rock, a seguir através da Janis Joplin, que é a minha influência digamos maior, fui começando a ouvir umas coisas de blues e jazz depois comecei a ouvir muito, muito, muito a Sarah Vaughan, a Nina Simone, a Ella Fitzgerald…Depois, para além da música clássica que é óbvio, a música portuguesa que já está de berço connosco. A minha família eram cantores e fadistas, fadistas muito amadores, de reunião de família, mas sempre se ouviu muita música e sempre se cantou e tocou, por isso já me está no ADN, não é? Após isto fui eu descobrir também, inconscientemente fui procurar a Amália, o Zeca, o Sérgio Godinho, o Fausto…Portanto, é tudo aquilo que me diga alguma coisa! A música urbana também é importante, não quero saber de géneros, de etiquetas, aliás acho que isso é algo, se houver uma constante na minha vida, é o de não gostar muito de etiquetar, de me etiquetar e de etiquetar as coisas. Se gosto, gosto, nem penso muito porque é que gosto.


Quem são as grandes referências musicais dos Deolinda?

A raiz portuguesa é uma influência absoluta, desde os cantautores dos anos 60, como o Fasto, o Zé Mário Branco, o Zeca Afonso, o Sérgio Godinho, depois o Fado, não é? A Amália, o Marceneiro…E também a música que se está a fazer hoje, tudo aquilo que se faz hoje na música portuguesa, que é algo tão rico e obviamente aquilo que nós todos ouvimos. Aliás, no início a Deolinda estava só em sítios pequeninos e auditórios. Quando tivemos de pisar um palco gigante, um festival de Verão para milhares de pessoas que estavam habituadas a ouvir concertos de rock, o rocker em nós despertou! O rock não é uma coisa que se associe imediatamente à Deolinda, mas a nossa postura de palco acho que também tem essa influência que o rock tem em nós de “Estou aqui, de vamos curtir muito!” Eu não paro um segundo em palco. Pronto, é isto, uma miscelânea de influências.


Que “Outras Histórias” procuras contar com o novo álbum?

Eu acho que para já historias que façam sentido em 2016…Ou seja, a Deolinda é uma cronista, ela vai contando aquilo que vai vendo e portanto se formos ouvir o disco, “O Canção ao Lado”, que é de 2008, percebemos como é que era a rua da Deolinda em 2008, depois o disco de 2010, o “Dois Selos e um Carimbo”, encapsula aquele ano e este encapsula 2016 mas sem querermos que também nunca fique datado nesse sentido mas que conte a Lisboa e o Portugal de 2016…Os seus problemas, as suas alegrias, as suas mudanças, sendo que a essência se mantém, procurando essa essência do ser português que é também, na verdade, o ser cidadão do mundo. Nós andámos pelo mundo e andamos pelo mundo todo e deixamos as nossas sementes. Aliás com as nossas viagens que fazemos com a Deolinda ao estrangeiro percebemos que os portugueses deixaram imensas sementes culturais em tudo quanto é lado mas também se deixam influenciar, e isso é tão bonito! Deixam-se influenciar pelos sítios onde vão e depois isso transmite-se através dos reflexos culturais, da culinária, da música, da literatura e, essa miscigenação, essa junção, essa fusão de coisas é maravilhosa! É a essência do que é português e é isso que nos inspira. As histórias que nós tentamos contar têm um bocadinho disso tudo.


Participaste no desfile do Ricardo Preto na Moda Lisboa em 2014. Qual a tua relação com a Moda?

A minha relação com a moda? Bom sempre foi essencial para me exprimir! Quando eu comecei a vestir-me a mim e a não deixar a minha mãe vestir-me (risos) estávamos no auge do grunge e eu fui logo por aí. Fui buscar as camisas de flanela do meu pai e do meu avô. O meu pai tinha um casaco de cabedal dos anos 70, umas calças à boca-de-sino, uns boyfriend jeans…Fui buscar os jeans do meu pai na altura, nos anos 90, e andava entre o grunge, depois conhecia dos anos 60 também o hippie, tinha uma rastazinha…Portanto sempre foi uma forma de me exprimir. Houve uma altura em que, paralelamente à música, estava a trabalhar, pelo que tive também de perceber como é que tinha que me vestir. Não podia ir com umas calças à boca-de-sino e sininhos, não é para o trabalho, e aí sinto que perdi um bocadinho uma identidade. No início da Deolinda procurava vestir a roupa da personagem, não era a minha personalidade em termos de roupa que ali estava, era a personalidade da Deolinda. Porque a Deolinda era uma coisa tão inclassificável ou tão difícil de classificar, até na nossa cabeça, pelo que era importante vestirmos aquilo tudo… Vestirmos-nos, vestirmos o cenário e a partir do momento que as pessoas foram conhecendo a Deolinda isso foi deixando de ser tão importante e eu fui tentando trazer mais a Ana Bacalhau, redescobrir as minhas influências. Felizmente agora os anos 90 estão outra vez a voltar e eu adoro…Adoro os slip dress, as botas da tropa, os chokers, adoro isso tudo. Para além disso na minha profissão é importante estar-se atenta às tendências…E eu adoro brincar e sinto que já aprendi imensas coisas e tenho uma enorme curiosidade em aprender mais e em ver imagens, que isso também é muito importante, a moda em termos de imagem estética. É fantástico para tirar ideias para depois fazermos os cenários de palco, as capas dos discos, as fotos, sendo importante para percebermos também os nossos tempos, em que tempo é que estamos a viver, porque a moda capta as coisas antes…Como a música, como a arte, capta as coisas um bocadinho antes de elas acontecerem até.


Ana estamos aqui com o rio como pano de fundo e sei que és uma apaixonada por Lisboa, qual é a tua rotina na cidade?

Descer a Almirante Reis a pé, do Areeiro até ao Martim Moniz e daí, seguir até ao rio, onde termino o passeio na companhia de um livro, a espreguiçar numa esplanada.


Os Deolinda procuram com a música influenciar comportamentos, chamar a atenção para os problemas? Lembro-me desde logo do “Que Parva que eu sou”, um retrato bem fiel dos dias que correm…

Sim, infelizmente! Vejamos, a canção tem 5 anos e continua actual. Fala muito dos problemas que a nossa geração enfrentou e enfrenta e cada vez mais gerações, não é? Para nós essa visão, esse comentário é muito importante porque foi assim que também fomos criados, fomos crescendo na nossa família sempre assistindo a discussões, e discussões, quando eu digo discussões… Hoje em dia com o Facebook as discussões têm uma conotação negativa…Mas não, discussão no sentido de trocar argumentos e ideias! Na nossa família sempre houve discussão politica, lembro-me sempre de estar a ouvir os adultos, pelo que para nós é uma coisa muito natural, que surgiu desde o primeiro disco…”O Movimento Perpetuo Associativo”, esse comentário social, politico, “Que parva que eu Sou” foi o zénite, foi quando as pessoas perceberam melhor que nós também tínhamos essa vertente, essa música, como temos outras. Algo continuado naturalmente no terceiro disco, neste disco também, porque é uma parte de nós. Nós temos um olhar critico da sociedade em que vivemos, para nós é importante falar também sobre isso e não tanto para influenciar a opinião das pessoas. Não quero que as pessoas pensem de certa maneira porque eu lhes disse para pensarem assim. Quero que as pessoas pensem e concordem comigo ou não mas que teçam os seus comentários, cheguem às suas conclusões por elas e se alguma coisa que nós cantemos pode ajudar as pessoas a pensar em certo assunto para mim é perfeito!


Como te defines como mulher?

Eu tenho dois lados…Tenho um lado maria rapaz, um lado do epá eu quero um corte de cabelo que não me dê muito trabalho! A primeira sessão fotográfica que fiz foi com a Rita Carmo, nem um lápis nos olhos trazia…Foi ela que me pôs um lapisinho. Hoje em dia já sei fazer um esfumado (risos)…Mas por outro lado eu gosto, adoro ser mulher! Porque ser mulher para mim não é o rótulo, nem me impede de fazer nada, pelo contrário, é uma riqueza imensa, é uma forma, são mil e uma formas de expressão, que eu tenho ao meu alcance. Por exemplo, através da roupa posso dizer num dia que sinto-me assim e noutro dia visto outra roupa e sinto-me de outra forma, através da maquilhagem, através da sensualidade inerente…Pode ser uma sensualidade nuns dias mais suave ou pode ser uma sensualidade mais in your face e no outro dia posso estar mesmo a sentir-me uma maria rapaz. Depois é todo esse lado feminino, do lado maternal que existe em mim e que eu preservo e que adoro. Do sentir-me a cuidadora das pessoas, de me dar incondicionalmente e de querer que as pessoas estejam felizes e não me centrar apenas em mim, mas também perceber que é muito importante eu cuidar de mim e não descurar o lado masculino que também temos e que é o lado que diz “espera”, temos também de nos preocupar connosco porque se não estivermos bem não sabemos cuidar de ninguém. Portanto lá está, ser uma mulher é ser tudo! É dar vida, é ter vida, é ter uma ligação com a mãe natureza, uma ligação à terra fantástica que nós temos! Percebemos a nossa intuição, percebemos as coisas. É-nos fácil, é intuitivo…Portanto, é conseguir perceber todo esse poder, esses poderes fantásticos que nós temos por sermos mulheres, por termos tido a sorte de nascer mulher e saber utilizá-los a todos. Isso só vem também com a idade, de uma forma sabia, inteligente e a nosso favor e a favor do mundo.


Tens mau acordar ou vais à procura de fazer um mundo melhor (risos)?

(Risos)…Não tenho nada mau acordar, aliás, é raro ser acordada pelo despertador. Geralmente acordo um minuto ou dois antes, porque odeio ser acordada pelo despertador e quando acordo pareço uma mola! Levanto-me e já estou, estou pronta para o mundo! Portanto, é isso, vou logo, logo à procura de fazer um mundo melhor!



 Créditos Fotográficos 



Look

Vestido Zara | Sapatos Rockport | brincos Ayala Bar | Relógio Marc by Marc Jacobs


Make-up Miriam for Benefit Boutique | Hair by Tita Martins for Anton Beill Hairdressing

3 comentários:

  1. Adorei conhecer mais sobre os Deolinda e em particular sobre a Ana Bacalhau, a sua visão do mundo, a sua forma de estar! Excelente entrevista, parabéns às duas!

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  2. Parabéns às duas (entrevistadora e entrevistada) pela excelente entrevista que parece interromper uma silly season, habitualmente tão sem conteúdo ou valor. Adorei conhecer o lado feminino, feminista mas, acima de tudo, humanista, de Ana Bacalhau. Como Stylist, queria muito valorizar a sua visão é relação com a moda e referir-me ao outfit da Carmen como sendo de irrepreensível bom gosto, só para não variar. Stylist que também é, a Carmen sabe sempre jogar com as cores a seu favor e, por isso, e apesar de ter uma paleta cromática fria, pode iluminar os seus dias de verão com o amarelo que lhe fica lindamente, quando está bronzeada. Beijinhos de sol e mar, minha querida!

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    1. Obrigada minha querida, foi um prazer realizar esta entrevista e conhecer melhor a Ana Bacalhau que tal como referes é uma mulher fantástica, inteligente e genuína. Fico contente que tenhas gostado do meu outfit, o amarelo é uma das minhas cores de eleição nesta estação ;)

      Um grande beijinho

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