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2 de junho de 2015

Cuca Roseta | Na Primeira Pessoa


Tive o enorme privilégio de entrevistar a Cuca Roseta, esta entrevista já estava na minha cabeça há algum tempo mas só agora se concretizou. A altura não podia ser mais perfeita, após o lançamento do seu disco Riu. Fiquei a admirar ainda mais esta embaixadora do fado. Uma mulher lindíssima, romântica, cheia de garra e com um sorriso encantador. Obrigada por esta oportunidade Cuca! 


Cuca Como defines o fado? O que é para ti ser fadista? 

Eu defino o fado como uma música mais profunda, mais intima, menos superficial, uma música sem máscaras e uma música que é só nossa, que é quase uma linguagem da alma...Porque ultrapassa todas as fronteiras, chega a todos os países como se não houvesse língua. Por isso é uma música muito especial.


O que é para mim ser fadista? Acho que para mim ser fadista é ser eu própria. Demorei muito tempo a encontrar porque é que eu era como era, porque é que tinha esta personalidade. Estudei Direito dois anos, fui tirar um curso de psicologia clínica, depois fui tirar uma pós-graduação em Marketing, a seguir comecei a tirar um Mestrado em Antropologia e ao mesmo tempo ia cantando mas a música não era a minha paixão até eu conhecer o fado…Realmente quando comecei a trabalhar com o fado percebi que tinha nascido para cantá-lo. Por isso, para mim ser fadista é ser uma embaixadora de Portugal no mundo, é ter o orgulho em Portugal, conhecer as nossas qualidades…É ser uma pessoa romântica, nostálgica, intensa, apaixonante e é gostar de poesia, é gostar muito de poesia, porque o fado é declamação de poesia! 


E imaginas-te noutro registo? 

Não, não me imagino, eu tenho muitas influências e acho que este disco também mostra isso. Acho que o meu fado pode ser casado com outros géneros mas não consigo deixar de cantar o fado. O meu fado acaba por ser um bocadinho diferente, um bocadinho mais leve mas não deixa de ser o meu fado. Por isso não consigo imaginar-me a fazer outra coisa.


O teu último álbum “Riu” conta com a colaboração de vários nomes conhecidos, entre eles Bryan Adams e Djavan com quem interpretas um dueto. Como foi esta experiência? Quem gostarias de desafiar a colaborar num próximo álbum teu? 

Esta experiência foi incrível e nem acreditei na altura. Fui fotografada pelo Bryan Adams para a capa da Vogue e não perdi aquela oportunidade para lhe pedir uma música e ele disse-me que sim. Foi espectacular e depois ainda aproveitei para lhe pedir para me dar a capa do disco. 

O Djavan conheci-o no Cool Jazz de Oeiras, fui fazer um dueto com ele e disse-me para lhe telefonar quando gravasse o disco, pois ele queria participar de alguma forma. Foi muito bom ter o Nelson Motta, porque o Nelson acabou por fazer a ponte e na altura quando eu liguei ao Djavan eles já tinham uma música juntos. Nós fomos lá a casa…Portanto tudo fluiu…Ora quem eu gostava muito de ter num próximo disco...Gosto muito do Rui Veloso, que também podia ser alguém que marcou a minha vida que não fez parte deste disco…Porque acho que todos, o João Gil, o Jorge Palma e a Sara Tavares são nomes que fizeram parte da minha vida e da minha infância musical sempre…Assim dos portugueses…o Sérgio Godinho também gosto muito, também gosto do Vitorino, muito popular e é giro, tem uma visão muito própria! Nos internacionais o meu grande sonho de parceria era a Maria Bethania, acho que aquilo em que me revejo nela é a forma como ela diz a palavra, como conta a história e isso para mim é assim TOP de TOP! Porque acho que o fado é isso, é saber dizer e saber contar uma história e ela é uma contadora de histórias, é fantástica! 


As viagens fazem parte do teu quotidiano, de que forma influenciam a tua música? 

Acho que as viagens influenciam muito e este disco é a total influência das viagens que fiz durante estes 10 anos. Porque nós trazemos o fado, nós trazemos Portugal connosco mas temos a sorte de poder cruzar o fado com muitas culturas diferentes, vários géneros musicais e isso enriquece-nos muito, dá-nos uma abertura maior. Eu acho que este disco é isso mesmo é um presentinho, não é? É um world fado como chama o Nelson Motta. É um presente para todos os Países onde nós viajámos e fomos tão bem recebidos por estrangeiros que não conhecem a nossa língua e que podemos aqui, por exemplo, dar um Fado em italiano. São pequenas aproximações sem desvirtuar o nosso fado mas também entregar qualquer coisa e para mim este disco é uma viagem pelo mundo. 


Consideras que as tuas raízes italianas têm influência na tua forma de ver a vida? 

Sim, acho que sim…Tenho um amor gigante por Itália e pelos italianos e pela música e também acho que é das línguas mais bonitas do mundo e por isso gostava muito de cantar em italiano. Não tem sido muito cantado também por alguns artistas, acho que o francês está mais na moda, também é…É a minha língua preferida, o francês! O italiano é a seguir mas quis dar este presentinho, porque é um bocadinho como estava a dizer…Nós cantamos lá muito e quando alguém recebe o nosso fado na sua língua é entendido de outra forma. 


És uma romântica? Como é viver um amor à distância? 

(risos) É muito difícil, nós vivemos da memória, foi muito bom para nós termos um relacionamento tão forte, tão puro, tão intenso, tão profundo e tão perfeito, eu acho! Tive um relacionamento muito perfeito com o João e essa base é tudo. Quando nós vivemos a uma distância muito grande e não vimos a pessoa parece que voltamos aos tempos antigos, que os marinheiros vão para o barco e as mulheres ficam e não sabem quando é que eles voltam, nem sabem o que é que eles estão a fazer. No fundo estamos a viver duas vidas diferentes, apesar de falarmos pelo Skype, há sempre a diferença horária e na verdade não sei onde é que ele mora, com quem é que ele está, ele não sabe onde é que eu estou, com quem é que estou…Vivemos duas vidas diferentes e é muito bonito porque acho que só duas pessoas como eu e ele é que mantinham este relacionamento tão forte. Nós acreditamos no nosso lado espiritual, não estamos a viver, vivemos da memória que vivemos e esperamos vir a continuar a viver mais à frente, não é? Mas realmente é um momento de stand by e é muito duro…É muito duro estarmos longe de uma pessoa e estarmos ligadas a uma pessoa que não está aqui e com quem não podemos partilhar nada…Não ver a pessoa com quem queremos partilhar tudo é muito doloroso mesmo! 


Tens uma música dedicada à nossa cidade, “Lisboa de Agora”, onde a referes como uma cidade na moda. Qual é para ti o roteiro imperdível na nossa cidade? 

Eu sou apaixonada por Lisboa…É tanta coisa…O Castelo de São Jorge é incrível sei que é turístico mas é incrível! Tem uma vista sobre Lisboa…Lisboa tem uma luz única e as cores das casas são suaves, é lindo! E ali no Castelo…Quando nós viajamos pelo mundo e chegamos aqui as casinhas com aqueles tons pastel…É uma cidade lindíssima, com um ar limpo, por causa das cores que tem e da luz que tem, mas o roteiro…Passar o rio Tejo no cacilheiro, que é uma coisa que eu adoro fazer e que faço muitas vezes. Passear por Alfama, eu sou apaixonada por Alfama, canto lá e realmente aquilo é um centro histórico, quase, a pessoa viaja pelas ruazinhas, pelas ruelas…E os pormenores das escadinhas, os arcos, é único no mundo! Eu nunca vi, nunca, e já viajei muito. Itália tem muito estas ruas fininhas, Marrocos, que é lindo também mas assim como as nossas não há nada igual! O Chiado, o Chiado também é mágico! E o Príncipe Real também. O Príncipe Real está completamente na moda. Eu falo do Príncipe Real nessa música e digo “o Príncipe mais real anda mega original”, é usar as gírias de hoje em dia porque realmente está a crescer! 


Lisboa está mesmo na moda, toda a gente lá fora vem a Lisboa e encanta-se por Lisboa e acho que cresceu muito, cresceu muito com a crise. Depois da crise as pessoas sentiram-se na necessidade de criar mais sem medo, porque foram um bocadinho obrigadas, eu acho. Também senti isso na minha música e vejo isso a acontecer. Agora, de repente, está na moda as tapas e imensos restaurantezinhos mais cozy, os quiosques…Foi uma coisa giríssima que surgiu! É incrível, eu sou apaixonada por Lisboa mas acho que agora é o lugar mais incrível para se visitar e tem sido muito visitado e muito valorizado lá fora. Foi essa mensagem que eu quis passar nesta música. Essencialmente perceber que as pessoas andam completamente apaixonadas por Lisboa….E os mercados?! Os mercados o mercado da Ribeira…Como digo na música “…de Ourique ao da Ribeira, são à moda, são cool, são à maneira”. São à moda porque realmente eles agarraram no antigo e fizeram algo…É lindo, é realmente…Eu adoro. O da Ribeira então tem os meus restaurantes preferidos, há tudo, até o Santini! 


Por falar em moda, gostas de seguir as tendências? Como defines o teu estilo? 

Durante muitos anos fui sempre muito natural Não via as revistas, depois quando comecei a tornar-me mais mulher e depois de ser mãe comecei a interessar-me. Hoje em dia interesso-me muito. Gosto muito de ver as revistas, vejo ideias, que era algo que eu não fazia. E gosto muito de ir a passagens de modelos…Também comecei a ir ver quais é que são as tendências, já começo a conhecer mais marcas. Acho que me tornei mais feminina com o tempo, que eu sempre fui muito maria rapaz…Apesar de ter um ar feminino sempre fui muito maria rapaz mas é muito giro, porque é algo que estou a explorar agora. Agora é que me tornei mais mulher! A partir dos 30 foi quando comecei a interessar-me mais por mim, pela imagem, porque também a imagem fala por nós. A imagem é quem nós somos, é o nosso cartão-de-visita. 



Este ano tiveste oportunidade de experimentar também a dança, como foi esta experiência? 

Foi lindo, foi espetacular! Adoro música e sempre gostei muito de dança. Sempre que havia workshops eu experimentava mas aqui foi uma experiência a sério, tínhamos aulas 24 horas por dia. Dançávamos das nove às seis e tínhamos uma coreografia para fazer e tínhamos alguém para ver, não é? Quando há este medo de fazer bem exigimos mais de nós próprios. Foi uma experiência incrível! Acho que aprendi tanto como artista…Porque aprendi a expressar-me da mesma forma que me expresso com a voz. Aprendi a expressar-me com o corpo e é lindo! É tão bonito quando passamos a ter noção dos limites do nosso corpo e a dança faz isso…É lindo quando estamos a interpretar uma música exactamente como quando eu interpreto um fado e nos emocionamos e isso sente-se da ponta do dedo até à ponta dos pés, na dança é algo fantástico! É muito libertador e quando os bailarinos profissionais dizem que quando dançam se sentem livres e sentem algo único é o mesmo que eu sinto quando canto fado. Pude agora experimentar este lado e por isso foi uma experiência para a vida, mesmo, foi uma experiência maravilhosa! Eu tive a sorte de dançar cinco, aprendi cinco danças diferentes, seis, que já tinha ido à salsa e são estilos que eu nunca dançaria na vida, não é? Se não fosse assim…Foi maravilhoso!


Como te defines como Mulher? 

Acho que eu sou uma romântica, uma apaixonada pela vida, sou sonhadora mas também me vejo como uma guerreira, como uma mãe galinha. Sou aventureira, sou muito independente, sou teimosa, não podem ser coisas boas, não é? (risos) Sou muito teimosa na persistência, sou muito persistente quando quero uma coisa. Acho sempre que nada é impossível, então luto muito por aquilo que eu acredito e que eu sonho.


Créditos Fotográficos Rute Obadia Fotografia


Make-up by Ana Bimbarra Benefit Boutique

Hair by Tita Martins for Anton Beill Hairdressing



Look

Dress  Pedro Del Hierro | Bag Pedro del Hierro 

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